Era um fim de sábado qualquer dos anos 90. Lá estava eu, nos meus longínquos 15 anos, assistindo "A Praça é Nossa". Era apenas um pretexto (Embora eu realmente gostasse do programa), para dar início a minha saga rumo a madrugada do domingo. A missão?? Segurar o sono até o lendário "Cine Privé", exibido pela Band entre os anos de 1995 e 2012. Após o programa de Carlos Alberto de Nóbrega, eu emendava com o "Sabadão", sob o comando de Gugu Liberato. Ele ia até cerca de 1 da manhã.
Óbvio que ainda durante o Gugu, eu dava as primeiras zapeadas para a Band (As vezes os filmes começavam antes mesmo do fim do programa do então pupilo de Silvio Santos). A essa altura, meus pais já estavam dormindo, então, os procedimentos eram os seguintes: Fechar a porta do quarto deles, baixar o volume da televisão, deixar a porta do meu quarto aberta (Eu o dividia com uma irmã) e sentar na ponta do sofá com o controle na mão.
Com o tempo, o meu "modus operandi" passou a contar com a preparação do vídeo cassete (Lembro que o mecanismo que levava a fita para dentro do equipamento fazia um barulho "dos infernos"). Muitas vezes colocava a fita pra dentro do aparelho com meus pais ainda na sala, sendo assim, quando o filme começasse, bastava ligar e começar a gravar, para assisti-lo com mais calma - e com volume - quando eles não estivessem em casa.
Tudo pronto, começava a sessão, mas quem conseguia assistir alguma coisa com a tensão tomando conta do ambiente??? Era uma olhada pra tevê, outra pro controle (Pra ter certeza que o dedo estava no botão certo), e uma terceira para a porta do quarto dos "coroas". Não foram poucas as vezes em que a sessão era interrompida - ou pra desligar a televisão, ou pra mudar de canal abruptamente - quando um barulho diferente vinha do quarto do casal (O coração chegava a acelerar hahahahaha)
A verdade é que, sem medo de errar, 80% dos adolescentes daquela época viviam a mesma aventura. Nos tempos em que televisões a cabo e a internet não estavam popularizadas no Brasil e o acesso a produtos de pornografia se limitavam as videolocadoras e vendas de fitas e revistas nas bancas de jornais (E nem todos conseguiam), a madrugada da Band virou o playground da molecada na puberdade. Mesmo que os filmes "Porno Soft" não mostrassem muita coisa (O sexo era verdadeiramente encenado), já eram o bastante naquela fase de descobertas.
Com o tempo (e o sucesso), a Band ampliou a faixa erótica. Surgia "Sábado em Hollywood". Recordo-me nitidamente de assistir, nessa sessão, meu primeiro filme da lendária série francesa "Emmanuelle", ainda interpretada pela Sylvia Kristel. Com o tempo, a franquia ganhou uma versão mais futurista, repetidas vezes exibida nos últimos anos da sessão. Pois é amigo, o "Cine Privé" faz parte da memória afetiva de muito marmanjo por aí.
Para nossa surpresa, a Band anunciou na semana passada o retorno da sessão de filmes eróticos. O "Cine Privé" retorna a grade de programação no próximo dia 24, à 1h15, e a pergunta que fica é basicamente uma: Tudo será como antes? Evidente que não. Nem para nós, tampouco para a nova geração, que vive no universo da pornografia ao alcance dos dedos. Basta um rápido acesso mínimo de 5 minutos e tá lá o "pornozão" explícito na tela do celular.
O fato é que a volta do "Privé" deve atrair a marmanjada que está afim de relembrar os velhos tempos e aquele público ávido por produções de qualidade, com alguma poesia. Em resumo, será apenas mais um horário de filmes na televisão. Os adolescentes da era high tech provavelmente não terão interesse algum. Com toda certeza do mundo, já viram beeeeeeeem mais do que a nossa eterna "Emmanuelle" tem para lhes oferecer.
Fotos: (Divulgação)

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